sexta-feira, 27 de abril de 2012

Carta de Jorge Amado para Pilar e José Saramago

Fonte:
Ministério da Cultura do Estado de São Paulo
Museu da Língua Portuguesa
Fundação Casa de Jorge Amado.




Para Pilar e José Saramago
fax: (34-28) 510-299

Salvador, 19 de junho de 1993.
  
                                      Queridos Pilar e José,



Estava eu hoje ditando a Paloma um fax para vocês quando recebi o vosso. Muito obrigado.

Estou bem, em plena recuperação há um mês do infarte.

Somente agora os médicos permitem-me retornar à correspondência. Aqui agradeço, de todo o coração vossos faxes de hoje e de 18 de maio, assim como a carta de José datada de 9 de maio, que tanto me honrou e comoveu.
                                      

Infelizmente  os médicos não me liberaram para comparecer à reunião da Academia Universal das Culturas, que se realizará em Paris a 29 deste mês. Escrevi a meu amigo Yashar Khemal, também membro da Academia, pedindo-lhe que zelasse pelas candidaturas que indiquei - a de Oscar Niemeyer, a de José e a de Ernesto Sabato - às quais acrescentei a de Jack Lang no momento em que ele deixou de ser ministro de Cultura da França.

 Logo que esteja liberado viajarei para Paris, passando por Portugal. Gostaria de saber vosso calendário para o mês de julho.

Zélia, assim como meus filhos Paloma e João, juntam-se a mim num beijo para Pilar  e num abraço afetuoso para José.


Vosso




Jorge Amado


quinta-feira, 26 de abril de 2012



No meio do plano de marketing da gravadora Capitol para lançar os Beatles nos Estados Unidos estava um disco, com esta entrevista promocional, a ser distribuído para todas as rádios da América.

Como vocês decidiram batizar o grupo de The Beatles?
John - Bem, eu tive uma visão quando tinha 12 anos. E eu vi um homem em uma torta flamejante e ele disse: "Vocês serão Beatles com um A". E aqui estamos nós (risos). De qualquer jeito, foi como começou.

E para você, Paul, como começou?
Paul - Nós fizemos nosso primeiro LP no começo de 1963 e ele foi um hit. Mas eu acho que ... hmmm ... que tudo começou de verdade quando fizemos o Sunday Night at the London Paladium. E dali nós fomos convidados para o Royal Variety Command Performance, você sabe, então conhecemos a rainha mãe, e ela nos aplaudiu ... (risos).
John - A princesa Margaret também.

Vocês sabem quantos discos vocês venderam até hoje?
Ringo - Hmmm, bem ... Dá última conta era 6 milhões, eu acho.
John - Esses foram só os discos do Ringo (risos)
Ringo - É verdade, os dos outros estão em liquidação (mais risos)

Vocês ouviram falar que seus discos estão entrando nas paradas de sucesso em países por todo o mundo?
George - Sim. Bem, nós ouvimos falar que nosso último single, I Want To Hold Your Hand, entrou no Top 20 da Austrália direto no número um, o que é bem bacana. E eu acho que está vendendo bem na Finlândia e Suécia e lugares como esses, também.
Ringo - Na Irlanda, também.
John - Em Israel, eu acho.

Mas vocês nunca imaginaram ter uma aceitação mundial ...
George - (irônico): Bem, isso seria educado de se dizer (risos)
Ringo - Nós temos muita sorte.

Dizem por aí que vocês usam perucas.
Paul - Não, isso é um rumor sujo. Não usamos.
John - O que acontece é que cortamos nossos próprios cabelos (risos)

O que os influenciou a deixar os cabelos tão compridos?
Paul - Acho que foi meu pai, na verdade. Ele disse: "Sabe, filho, você está um pouco careta", com aquele cabelo que eu tinha - você sabe, curto atrás e dos lados. Então ele disse: "Por que você não faz um corte beatle"? (muitos risos)

Vocês se sentiram em perigo por conta do assédio das fãs mais destemidas?
Paul - Bem, elas são destemidas, mas nós ... bem, nós gostamos. Nós nunca terminamos com nenhum arranhão, porque os policiais são igualmente destemidos. A polícia tem um belo time (risos).

Onde vocês arrumaram essas roupas bacanas?
Ringo - Não sei. Nós estávamos apenas passeando pela cidade e olhamos por uma vitrine. E gostamos do que vimos e simplesmente compramos um terno cada um e decidimos que seriam nossas roupas de palco. Foi como começou, sabe? E nos vestimos assim desde então.

Várias de suas canções contêm palavras como "you", "me", ou "I". 
George - "Please please me", "From me to you" ...
John - "She Loves you", "I want to hold your hand" ...

Exatamente. Qual o significado disso?
Paul - Nenhum, a única ideia é que, bem, quando nós cantamos canções, nós preferimos aquelas com um tipo de toque pessoal, como você vê. Então, o melhor jeito de colocar isso em uma música é escrevê-la com palavras como "eu" ou "você" ou "mim" ou "ele". Ou "por" ou "através" ou "que" (gargalhadas).

Entrevista gravada e distribuída em fevereiro de 1964, durante a primeira visita dos Beatles à América.
Fonte: Revista Bizz Edição Especial - "The Beatles: tudo sobre a caixa de DVDs Anthology".

I Saw Her Standing There - http://www.youtube.com/watch?v=oWdqh2PPvTI






quarta-feira, 25 de abril de 2012



John Lennon

Foi uma época maravilhosa aquela. Eramos como os reis da selva, e bastante chegados aos Stones. Não sei se os outros ficaram muito íntimos, mas eu passava bastante tempo com Brian e com Mick. Eu os admiro, sabe? Curti da primeira vez que os vi, naquele lugar de onde eles vêm, Richmond. Passei muito tempo com eles, e foi ótimo. Todos nós costumávamos ir até Londres de carro, encontrar uns com os outros, falar sobre música com Eric e os Animals, tudo o mais. Foi realmente o melhor período, em termos de fama. Não eramos tão perseguidos. Era como um clube de fumantes masculino, só nos melhores ambientes. Brian Jones ficou diferente ao longo dos anos, enquanto se desintegrava. Ele acabou como aquele tipo de cara que , quando telefona, a gente tica com medo, porque sabe que vem problema. Ele realmente sofreu muito. No começo, tudo bem, porque era jovem e confiante. Foi daqueles caras que se desintegram na frente da gente. Não era brilhante, ou nada disso, era só um cara legal.
As excursões dos Beatles eram como o filme "Satyricon", de Fellini, Tínhamos essa imagem. Cara, nossas excursões eram demais. Se você conseguia embarcar, então estava dentro. Eram como o "Satyricon", sim senhor.
Em todos os lugares onde íamos, tinha sempre muita coisa acontecendo. Tínhamos quatro quartos separados. Tentávamos mantê-los fora de nossos quartos. Os quartos de Derek e Neil estavam sempre cheios de drogados e prostitutas, sabe lá Deus quem mais, e policiais também, "Satyricon"! Precisávamos fazer alguma coisa. O que a gente faz quando o efeito da pílula não passa e está na hora de ir? Eu costumava ficar acordado a noite toda com Derek. quer tivesse mais alguém ou não. Não conseguia dormir, com as coisas da pesada acontecendo. eles não as chamavam de tietes, naquela época, chamavam-nas de outra coisa; e se não conseguíamos tietes, arranjávamos prostitutas e tudo o mais, qualquer coisa que estivesse acontecendo.
Quando chegávamos à cidade, "chegávamos à cidade". Ninguém tinha dúvidas a respeito. Existem fotografias minhas em Amsterdã, de joelhos, saindo de prostíbulos, e coisas assim. A polícia me acompanhava aos lugares, porque nunca queriam nenhum escândalo, sabe como é? Na verdade não quero falar sobre isso, porque magoa Yoko. E não é justo. É suficiente dizer que as excursões eram como "Satyricon", e pronto, porque não quero magoar sentimentos das garotas de outras pessoas. Simplesmente não é justo.

terça-feira, 24 de abril de 2012

For No One



Texto de Steve Turner

Com sua melodia misteriosa e uma seção de sopros, trata-se de uma das mais belas composições de Paul. 'For No One' foi escrita em um chalé alugado a menos de um quilômetro da estação de esqui suíça de Klosters, onde ele e Jane passaram um curto período de férias em março de 1966. Ele voltou da Suíça para trabalhar em 'Revolver', e Jane começou os ensaios para interpretar a jovem Ellen Terry em 'Sixty Thousand Nights' no Royal Theatre, em Bristol.
Através de uma série de flashbacks de sua vida juntos, a música capta o início da descoberta de que os sentimentos de alguém  desapareceram. Em uma entrevista, Paul afirmou que era sobre sua própria experiência de viver com uma mulher quando tinha acabado de sair de casa. O título provisório era 'Why Did It Die?', e ele admitiu depois que provavelmente era sobre 'mais uma discussão' com Jane.

segunda-feira, 23 de abril de 2012



Nenhum de nós teria conseguido sozinho (explicou certa vez Lennon), porque Paul não era suficientemente forte, eu não tinha muito charme com as mulheres, George era quieto demais e Ringo era o baterista. Mas nós achamos que se nos juntássemos, cada pessoa poderia gostar de pelo menos um de nós, e foi nisso que deu.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

"Enigma de Uma Tarde de Outono"



Enigma de Uma Tarde de Outono - c. 1910
Giorgio de Chirico

Texto: Mariana Shirai
Revista Época - 05 dez 2011

Aos 21 anos, o italiano Giorgio de Chirico (1888 - 1978) já tinha uma sólida formação em pintura e filosofia adquirida em Atenas, onde nascera, e , a partir de 1906, em Munique, na Alemanha, onde vivera e estudara. Ele estava em Florença e se recuperava de uma "penosa doença intestinal" quando, sentado num banco da Praça Santa Croce, teve uma sensação desconcertante. "Tudo, até mesmo o mármore dos edifícios e as fontes, parecia estar em convalescença", escreveu. "O Sol de outono, frio e pouco afetuoso, iluminava a estátua e a fachada da igreja. Então, tive a estranha impressão de que estava olhando para todas essas coisas pela primeira vez." Foi ali que ele concebeu o quadro Enigma de Uma Tarde de Outono.
De Chirico conseguiu, em sua obra, uma façanha rara: tornar visível de maneira realista aquilo que é imperceptível aos olhos. Ao tentar registrar com pincel e tinta os fenômenos que vivia, criou um movimento que ficou conhecido como Pintura Metafísica, decisivo para o surgimento, na década de 1920, da estética que misturava sonho e realidade e recebeu o nome de surrealismo.
Seu quadro Enigma de Uma Tarde de Outono retrata a Praça Santa Croce, mas não de maneira objetiva. A fachada da igreja renascentista lembra um templo grego, um mastro de navio é visto atrás de uma parede e a estátua de Dante é retratada sem cabeça e de costas. Ele expressou as diferentes emoções e os significados misteriosos que sua "revelação" (nome dado pelo artista a esse tipo de experiência) proporcionou. Com referências a mitologia grega e às experiências íntimas, essa nova maneira de pintar misturava diferentes perspectivas num mesmo quadro, usava cores pálidas e ambientes desertos. Ela combinava perfeitamente com o sentimento de melancolia e desorientação do homem moderno.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Os Invasores



Mario Quintana


Há muito tempo que os marcianos invadiram o mundo:
são os poetas
e
como não sabem nada de nada
limitam-se a ter os olhos muito abertos
e a disponibilidade de um marinheiro em terra ...
Eles não sabem nada nada
- e só por isso é que descobrem tudo.




- A foto acima retrata a poeta Cia Rinne, nascida na Suécia, em 1973.
Sua obra mais famosa é "Sons para Solistas", que junta texto e som.
Atualmente a poeta mora em Berlim.
Sons para Solistas - http://www.youtube.com/watch?v=y2NaLpiHOzU